João Batista e os essênios

João Batista e os essêniosA vida de João Batista foi um milagre desde seu nascimento. Zacarias, seu pai era um homem justo e exercia o sacerdócio no templo de Jerusalém. Isabel, sua mulher, era piedosa, mas estava impedida de ter filhos (Lucas 1.5, 6). Eles oraram a Deus por um milagre. Eles aguardaram o dia em que o ventre estéril de Isabel se tornasse um capo fértil. O Deus que escuta as orações e realiza prodígios, resolveu atender a súplica de Zacarias e fazer do filho desse velho casal um instrumento vivo nas mãos de Deus.

Na verdade, o nascimento de João Batista foi um duplo milagre. Deus tornou fértil o ventre estéril de sua mãe e deu condições a ela de conceber na sua velhice depois de passado o tempo da fertilidade. O nascimento de João Batista foi proclamado por um anjo de Deus em resposta à orações de seu pai (Lucas 1.13).

Além disso, o nascimento de João Batista trouxe um impacto profundo na vida da sua família e do povo. Seu nascimento trouxe alegria a seu pai (Lucas 1.14). Ele foi motivo de admiração de todo o povo (Lucas 1.66). O anjo também disse a Zacarias que o menino seria grande diante do Senhor (Lucas 1.15a). Ou seja, ele não apenas seria conhecido na história, mas, também, e, sobretudo, no céu. Ele nasceu para uma missão, a mais nobre de todas: ser o precursor do Messias! Outro fato digno de nota é que João Batista seria cheio do Espírito Santo desde o ventre materno (Lucas 1.15c). Muitos passam a vida toda sem saber o que é a plenitude do Espírito Santo, porém João Batista já era cheio do Espírito Santo antes de nascer. João Batista, não viveu estribado em sua própria força, mas sustentado pelo poder de Deus. Ele não viveu cheio de vaidade, nem cheio de ganância, ele estava cheio do Espírito Santo. Nenhuma sabedoria humana poderia produzir os resultados estupendos que João Batista experimentou em seu ministério.

Neste ensaio, gostaria de tecer algumas semelhanças e diferenças da vida de João Batista e os essênios. João Batista não viveu no palácio, mas no deserto. Não pregou no templo, mas às margens do Jordão. Surge uma interessante pergunta: De onde João tinha saído? Onde tinha aprendido a originalidade do seu batismo? A ideia foi dele ou copiou de algum outro lugar? Uma descoberta surpreendente, ocorrida nos idos de 1947 em Qumran, às margens do Mar Morto, parece ter conseguido resolver esse enigma de acordo com muitos estudiosos. Naquele ano, foram encontrados os restos de uma biblioteca do século I d.C., pertencente a uma seita judaica, com aproximadamente 900 livros em forma de pergaminhos. Graças a esse importante achado arqueológico foi possível conhecer a vida e o pensamento dos essênios, um grupo religioso do tempo de Jesus que tinha se retirado ao deserto para esperar a iminente chegada do reino de Deus. E a forma de viver e pensar dos essênios, dizem os eruditos, coincide assombrosamente com a de João Batista.

A Regra da Comunidade é o principal documento para conhecer a forma de vida que os essênios levavam em Qumran. E ao compararmos o que esse texto diz com o que sabemos de João Batista pelos evangelhos, ficamos admirados com as extraordinárias semelhanças que encontramos. Vejamos:

1) Todos os essênios eram membros de famílias sacerdotais que tinham entrado em conflito com os sacerdotes oficiais de Jerusalém e haviam se retirado do templo. João Batista também era membro de uma família sacerdotal (Lucas 1.5) e tinha se afastado de suas funções do templo.

2) Os essênios de Qumran instalaram-se no deserto de Judá e lá desenvolveram suas atividades. Também João se instalou no deserto de Judá e lá desenvolvia suas pregações, a poucos quilômetros de Qumran (Mateus 3.1).

3) Os essênios de Qumran haviam ido ao deserto “para preparar os caminhos do Senhor”, baseando-se em uma antiga profecia de Isaías que dizia: “no deserto, preparai o caminho do Senhor” (Isaías 40.3). Também João se inspirava no mesmo texto de Isaías (cf Marcos 1.3) e convidava as pessoas a ir ao deserto para preparar o caminho do Senhor.

4) Os essênios viviam de maneira austera e se alimentavam com os produtos que encontravam no deserto. Também João levava uma vida austera e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre (Marcos 1.6).

5) Os essênios esperavam a chegada do Messias, que implantaria o reino de Deus e renovaria a terra. Também João aguardava a aparição de um Messias que traria renovação do mundo (Mateus 3.12).

O historiador Flávio Josefo conta-nos que os essênios, apesar de não se casarem, costumavam adotar crianças órfãs para educá-las segundo seus princípios. Segundo o Evangelho, os pais de João Batista eram idosos quando ele nasceu (Lucas  1.18), motivo pelo qual é provável que o menino tenha ficado órfão. Supondo que foi acolhido entre os essênios por ser filho de um sacerdote, explicar-se-ia melhor a “estranha” notícia transmitida por Lucas de que João viveu no deserto desde pequeno até sua vida adulta (Lucas 1.80).

Vemos, pois, que as semelhanças entre João Batista e os essênios são numerosas. Porém, embora esses pontos convergentes sejam inegáveis, uma análise mais cuidadosa nos mostra também notáveis diferenças. E precisamente essas são as que mais contribuem para responder à questão do vínculo entre João Batista e os essênios. Vejamos:

1) Os essênios eram um grupo de sacerdotes inimizados com os demais sacerdotes de Jerusalém, mas não com o templo. Para os essênios o templo continuava como sendo uma instituição válida. Para João, ao contrário, não apenas os sacerdotes haviam perdido sua essencialidade, como também o templo tinha deixado de ser uma opção válida.

2) Em Qumran, os essênios submergiam-se na água todos os dias e várias vezes por dia. O batismo de João, entretanto, era único e irrepetível; só podia ser recebido uma vez na vida.

3) Em Qumran, cada um levava a si mesmo. Ao contrário disso, João era quem batizava os outros; por isso foi apelidado de “o Batista”.

4) Em Qumran, os candidatos tomavam banhos de imersão e só depois de um ano de espera. João não deixava ninguém esperando para ser batizado.

Conclusão: Vemos, pois, que, apesar das aparentes semelhanças, o pensamento de João Batista era diferente da comunidade de Qumran, de modo que é impossível supor que ele alguma vez tenha sido um essênio.

A isso devemos acrescentar um fato eloquente. O historiador judeu Flávio Josefo, que menciona João Batista em alguns parágrafos em seu livro Antiguidades Judaicas e narra cenas inéditas de sua vida, de sua prédica e até de sua morte, nunca diz que ele teria sido essênio. Esse silêncio é muito significativo, porque Josefo sentia grande admiração pelos membros dessa seita. Inclusive em suas obras menciona outro João, um general judeu da primeira revolta do ano 66 contra Roma, e o chama “João, o essênio”. Além disso, identifica como essênios outros três personagens, que eram profetas. Esses dados sugerem que se Josefo soubesse que João Batista era essênio, ele o teria identificado como tal.

Notas

CULMANN, Oscar. A formação do Novo Testamento. Ed. São Leopoldo: Sinodal, 2012.
JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus. Editora CPAD.
STEGEMANN, H. Los esenios, Qumrán, Juan Batista y Jesús. Madrid, 1996.
VALDÉS, Ariel A. Enigmas da vida de João Batista, Editora Sinodal, 2013.

Por, Marcelo Oliveira.

5 Respostas para João Batista e os essênios

  1. luis disse:

    mas porque os essenios entraram em conflito com os sacerdotes oficiais ????

    • andrey disse:

      é so voce ver o porque, naquele tempo o existiam 2 sumo sacerdotes, Anás e Caifas o que era errado, o essenios, mto tempo atras ao verem que Israel estavam de novo se desviando do proposito se retiraram pro deserto. o sacertoscio estava se corrompendo outra vez.
      espero ter ajudado um pouco haha

  2. Robson o. lima disse:

    Os essenios foi pessoas muito importante para intendermos a Historia de Joao o batista.

  3. Robson disse:

    No antigo testamento antes de Cristo avia batismo nas águas?

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